"Hoje, me sinto apta para viver qualquer personagem. Posso pegar um papel dificílimo, que sei que vou dar conta. Não sinto um peso a mais. Isso vem quando amadurecemos."
Letícia Sabatella

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Imprensa destaca estreia do filme Hotxuá

As edições do jornal Zero Hora e do Jornal do Comércio dedicaram grande espaço em suas edições para a estreia na capital do documentário Hotxuá, primeira incursão na direção de Letícia Sabatella. O filme está em cartaz no CineBancários, com sessões às 15h, 17h e 19h.

Confira os textos
Letícia Sabatella na aldeia da alegria

É um bom filme Hotxuá, o documentário que marca a estreia de Letícia Sabatella na direção de cinema. Mas não deve indicar, por ora, um novo rumo para a musa que acaba de chegar aos 40 anos.

“Quero ser atriz por mais tempo antes de dirigir outro filme” ela diz, em entrevista concedida primeiro por e-mail, depois por telefone.

A mineira Letícia assina Hotxuá em parceria com o cenógrafo gaúcho Gringo Cardia. No longa de temática indígena, eles visitam a tribo dos Krahô, no Tocantins. Acompanham seus rituais esportivos, discussões sobre a construção de barragens na região e, principalmente, registram as apresentações de um hotxuá - “sacerdote do riso”, figura que está presente na cultura daquele povo.

O longa estreou em um horário no Unibanco Arteplex, e entra em cartaz em outras três sessões diárias no CineBancários na quarta-feira. Não tem a força política de Corumbiara (2009) e o impacto formal de Serras da Desordem (2006), mas é bem filmado como As Hiper Mulheres (2011). Seu principal trunfo é o distanciamento – não confundir com neutralidade – com que se aproxima dos índios.


A seguir, Letícia explica o método de trabalho e algumas de suas inquietações, que orientaram a realização de Hotxuá.

Zero Hora – Você decidiu se tornar diretora pelo interesse neste filme especificamente ou por uma vontade de expressão artística que pode se repetir em outros projetos?
Letícia Sabatella – Eu não pensava em dirigir Hotxuá quando comecei a produzi-lo. Mas, com o envolvimento que tive com o projeto, fui convencida a assumir a direção. Chamei o Gringo Cardia para a codireção para ajudar na coordenação da equipe e, também, para fortalecer as decisões tomadas. Ele se juntou a nós uma semana antes do início das filmagens. Foi um ótimo parceiro. Quanto a outros projetos, te digo que quero ser atriz por mais tempo antes de dirigir outro filme.

ZH – Como foi a rotina de filmagens dentro da aldeia?
Letícia – A primeira viagem que fizemos durou 15 dias. Analisamos o material captado, fizemos uma pré-montagem e decidimos voltar à aldeia. Na segunda visita, fui sem o Gringo, com uma equipe reduzida. De novo ficamos 15 dias. Além disso, acompanhamos os índios em uma visita a Brasília, em reuniões sobre a construção de barragens próximas. E também trouxemos o pessoal da tribo para o (projeto) Anjos do Picadeiro. Registramos a interação entre o hotxuá e os palhaços e fizemos entrevistas com palhaços brancos, inclusive de outros países. Mas, na montagem final, optamos por restringir o filme ao espaço da aldeia. A ideia é guardar o restante do material para lançá-lo em outro momento, de outra forma.

ZH – Por que o convite ao Gringo Cardia?
Letícia – Conheci o Gringo quando fiz o clipe de A Cigarra (no qual a atriz canta em dueto com Elza Soares). Admiradora do talento dele como artista e do incentivo que ele sempre deu a projetos sociais, me senti à vontade para convidá-lo para fazer Hotxuá. Seu crivo de qualidade ajudou a me deixar mais segura para tocar o filme.

ZH – Vocês optaram por uma direção discreta. Aparecem pouco e deixam os índios se manifestarem sobre todos os assuntos. Por que este método de aproximação?
Letícia – Foi uma diretriz do projeto: interferir o mínimo possível na ação e dar aos índios total espaço e voz. Mas é bom ressaltar que tivemos a câmera brincalhona do (diretor de fotografia) Sylvestre Campe, que ficou tão íntima dos Krahô que no fim aquilo virou uma sem-vergonhice só.

ZH – Os índios tocam em temas delicados como o avanço das plantações vizinhas e a construção de barragens perto de seu território. Por que não interferir nem mesmo para aprofundar essas discussões?
Letícia – O filme retrata o hotxuá. Nossa proposta era segui-lo e, a partir dele, viver a festa da batata, a festa da fertilidade que o tem como estrela... Durante esta última, que conta com a presença de outras aldeias, questões são resolvidas e decisões, oficializadas. E ocorrem discussões sobre os problemas comuns a todos. Daí a função do hotxuá ao final: coroar a aldeia com esperança. É a forma que eles escolheram para enfrentar as dificuldades.

ZH – Fale mais, por favor, sobre a interação dos índios com um palhaço branco, ao fim do filme, sobre a opção por levá-lo à aldeia e a reação do povo Krahô.
Letícia – O palhaço é na verdade o ator Ricardo Puccetti. Ele esteve presente desde o início das filmagens. Até que um dia se arrumou escondido, surpreendendo os índios. Sua presença no filme representa a nossa presença na aldeia: nossa ideia era colocá-lo ali, da mesma forma que nos colocamos, para registrar o que aconteceria. Hotxuá é isso: o registro do encontro dos índios conosco, o encontro de duas culturas diferentes, mediada por uma figura alegórica que mostra a necessidade de rir e brincar para seguir em frente, resistindo.

daniel.feix@zerohora.com.br

Para trás das câmeras
Três musas da televisão entre os anos 1980 e 90 fizeram o mesmo movimento recentemente – todas estreando na direção com um documentário. Uma delas é Letícia Sabatella, que estourou com a novela O Dono do Mundo (1991), em que fez par com Ângelo Antônio. As outras duas:

PATRÍCIA PILLAR
Tem 48 anos. Apareceu em novelas como Roque Santeiro (1985) e Sinhá Moça (1986), mas obteve mais destaque com O Rei do Gado (1996). Em 2007, dirigiu Waldick, Sempre no Meu Coração, belo e surpreendente longa-metragem sobre Waldick Soriano que entrou em cartaz em Porto Alegre em 2009.

MALU MADER
Tem 45 anos. Estreou na TV em 1983, com Eu Prometo, mas se destacou em Fera Radical (1988) e Top Model (1989). Ao lado de Mini Kerti, dirigiu Contratempo, filme sobre meninos carentes e projetos sociais ligados à música, que é de 2008 mas chegou ao circuito apenas em 2010.


Jornal do Comércio - 20 e 21 de fevereiro
Descoberta do sorriso

É na maior área contínua de cerrado, em Palmas, no Tocantins, que um grupo de brasileiros encontra no riso sua maior força. O filme Hotxuá, que marca a estreia da atriz Letícia Sabatella na direção, ao lado do artista plástico e cenógrafo Gringo Cardia, apresenta um viés bastante autêntico e, por isso mesmo, digno de um olhar mais atento por parte do espectador.

Durante os 70 minutos do documentário, a câmera acompanha atentamente - e com delicadeza - o dia a dia da tribo krahô e a do palhaço sagrado Aprakt, mestre dos hotxuás e centro das atenções durante as festas. Logo no início do filme, crianças e adultos acompanham atentamente as encenações caricatas do índio, que interage com toda a comunidade no decorrer do dia. Qualquer um pode ser alvo das brincadeiras deste sacerdote do bom humor. “Você pode estar zangado, mas ele faz graça”, conta uma krahô, no filme.

A proposta do documentário surgiu a partir de uma demanda da própria tribo, quando os índios convidaram a diretora para realizar um registro sobre eles. O primeiro contato foi feito em 1996, quando Letícia visitou a tribo em função de um laboratório que estava fazendo para uma montagem teatral. “Depois de alguns anos de relação, eles me procuraram para que eu participasse deste movimento de recuperação da aldeia, enquanto eles vinham resgatando suas raízes e sementes antigas, adaptadas ao cerrado”, conta a atriz. De imediato, Letícia pensou em produzir um documentário: “O hotxuá me fascinava tanto quanto toda a bela cultura krahô, mas que tinha total sintonia com minha pesquisa como atriz”.

O elo fundamental entre a equipe de gravação e os índios foi o indigenista Fernando Schiavini, a primeira pessoa a contar sobre os krahô a Letícia. “Ele me ensinou muito mesmo sobre a tribo e o Hotxuá, era nosso mentor intelectual e grande diplomata.”

Para os krahô, não há distinção entre eles e a natureza, que se divide em duas forças: Wakmiyé, partido do sol, e Katamiyé, representando a noite. Por isso, há dois caciques, cada um representando um partido, que duas vezes por dia, promovem uma corrida de toras entre os partidos, para garantir o equilíbrio do ambiente. Eles tomam cuidado para que nenhum deles ganhe sempre e para que a competição seja motivo de união.

Para apresentar uma visão autêntica do que muitos brasileiros ainda não têm conhecimento, Letícia conta que optou por não incluir entrevistas com os mestres de fora da aldeia ou outros palhaços da cultura do homem branco dentro do filme. “Quisemos deixar que a aldeia contasse por si sua história, contextualizando o humor krahô na sua forma de vida, pois o humor é universal, como o palhaço, mas é também cultural.”

O único momento em que ocorre o encontro de culturas diferentes é quando um palhaço de fora e o hotxuá se deparam frente a frente. “Eu queria levar um palhaço à aldeia, registrar este diálogo, formar a dupla clássica de Branco-Augusto, conjugando com os princípios de opostos complementares Wakmiê-Katamiê da tribo.”

O filme foi vencedor do Prêmio do Júri Popular no Festival de Cuiabá e recebeu o troféu Mapinguari, no FestCine Amazônia, ambos em 2009. No mesmo ano, o filme também foi apresentado no Festival de Toulouse, na França.

Resistência indígena no cinema
Embora algumas tribos ainda mantenham vivos seus rituais, nota-se a necessidade destes em preservá-las em filmagens ou gravações de áudio, já que, em alguns casos, os mais jovens não perpetuam o legado de suas origens. No caso do longa Hotxuá, a diretora Letícia Sabatella conta que o filme fortaleceu a autoestima do hotxuá e da tribo. “Segundo o (indigenista) Fernando Schiavini, estimava-se 15 anos para não haver mais este ritual dos hotxuás. Vimos que uma faixa de idade mais jovem não brincava, mas foi crescendo a participação durante o documentário.” Isso foi o bastante para Letícia se sentir realizada, acreditando: “Ter aldeias como inspiração e presença fundamental na formação de cidadãos é mais do que um privilégio”.

Mesmo que o documentário tenha sua importância na divulgação da cultura do povo indígena, o gênero de ficção ainda é pouco explorado pelo cinema brasileiro. “Talvez revele o tamanho do espaço que a nossa sociedade dá aos povos indígenas. Estamos em 2012 e não havia registro sobre o hotxuá, nunca o vimos antes em festivais com outros atores e palhaços, isso se aplica a toda a cultura indígena, que é tratada como coisa do passado.”

Fonte: Zero Hora

22/02/2012

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